Mirella Prosdócimo: mas ela poderia ser chamada de Vitória!


Conheça a história de superação, coragem e sucesso da empresária curitibana, ex-aluna da UTP, que trabalha para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

 

 

Aos 17 anos, Mirella Prosdócimo, uma adolescente paranaense cheia de sonhos, foi obrigada a mudar de vida drasticamente. Um acidente de automóvel, quando voltava da praia, em 1992, a deixou tetraplégica (sem movimentos do ombro para baixo). Mirella levou quase 10 anos para superar aquele momento.

 

Em 2002 os irmãos a matricularam no curso de Letras da Universidade Tuiuti do Paraná, coisa que ela imaginava ser impossível nas condições em que estava. Depois de muita insistência por parte da família, Mirella concordou em ir à universidade, apenas no primeiro dia, "para ver como era". A partir daí, Mirella voltou a sonhar e mudou de vida mais uma vez... Conheça a história de superação, coragem e sucesso da empresária Mirella Prosdócimo.

 

Assessoria de Imprensa (A.I.) - Quais eram os sonhos da Mirella com 15 anos? Como você imaginava seu futuro?

Mirella - Acho que meus sonhos naquela época não eram muito diferentes dos sonhos de qualquer adolescente. Algo como me apaixonar e ser correspondida, trabalhar com alguma coisa interessante, continuar me divertindo com os amigos e, mais a longo prazo, realizar o sonho de qualquer mulher: casar e ter filhos.

 

A.I. - Quando aconteceu o acidente você estava no segundo ano, do segundo grau. Como e quando você conseguiu terminar esta etapa?

Mirella - Apesar de ter demorado um bom tempo para retornar aos estudos, terminar o segundo grau não foi tão difícil quanto eu imaginava. Como não conseguia me imaginar novamente em uma sala de aula a opção de fazer um supletivo, estudando por conta própria na comodidade da minha casa, não me pareceu tão aterrorizadora. Assim pude estudar no meu ritmo e quando me sentia preparada um professor vinha até a minha casa para aplicar a prova. Dessa forma consegui terminar o segundo grau ainda super protegida pela minha família, amigos e na segurança do meu lar.

 

A.I. - E a universidade? Como foi voltar a estudar?

Mirella - Já para a universidade a mudança foi muito maior. Esse foi um passo gigantesco na retomada da minha autonomia e independência. No início, realmente não acreditava que tivesse condições de estar novamente em uma sala de aula, afinal como faria as anotações importantes da aula? Como faria as provas? Teria que fazê-las oralmente? Apesar de ser uma pessoa extremamente otimista e positiva, nesse momento só via barreiras nesse processo! Acho que o medo de toda essa mudança me assustava demais.

 

Ao mesmo tempo eu percebia que precisava sair daquele comodismo e dependência em que minha família e amigos faziam tudo por mim, até porque já tinham se passado nove anos e como é natural, todos estavam seguindo seus rumos na vida. Minhas irmãs já tinham se casado e os primeiros sobrinhos começaram a nascer. Apesar da alegria que as crianças trouxeram na minha vida, já não me sentia mais como prioridade...

 

E esse foi um forte motivo para vencer minha resistência em retomar meus estudos (além da insistência de todos!). Nos primeiros dias de aula, um irmão ou minha melhor amiga me acompanhavam e mesmo assim o simples fato de responder a chamada já me deixava extremamente nervosa. Depois das primeiras semanas comecei a me apaixonar por aquela novidade. Tinha sido tão bem recebida por todos, já tinha conhecido pessoas maravilhosas e, em especial, uma professora me cativou. Adorava suas aulas que eram tão divertidas e esperava ansiosamente pela próxima. Logo já fazia parte de um grupinho que além de me divertir muito também me fazia sentir protegida. Até mesmo me apaixonei (situação esta que estava completamente descartada da minha vida), e foi muito bom enquanto durou, além de ter feito muito bem para minha auto-estima.

 

A.I. - Como foi o período em que ficou fora do Brasil, num intercâmbio universitário?

Mirella - Nessa época já estava no penúltimo ano do meu curso e já não tinha mais nenhum receio de me pronunciar durante as aulas, estar ali no meio daquelas pessoas já era a coisa mais normal do mundo! Minha vida já tinha mudado tanto... Já não era mais tão avessa às mudanças e os desafios passaram a ter um gostinho especial. Foi aí que surgiu a oportunidade do intercâmbio. Quando fiquei sabendo do processo seletivo não acreditei muito na possibilidade de passar, mas para minha surpresa quando saiu o resultado, não só tinha passado como também a minha melhor amiga da sala.

 

Quatro universidades faziam parte do projeto do intercâmbio, duas aqui do Brasil e duas dos EUA, para estudar sobre a inclusão com a ajuda das tecnologias assistivas. A Universidade Tuiuti mandaria quatro alunas para a Bridgewater State College, que ficava pertinho de Boston. Eu era uma destas quatro alunas, a outra era a minha amiga da sala e as outras duas eu ainda não conhecia. Não preciso nem dizer que acabamos nos dando super bem e a viagem foi maravilhosa, tanto para ter ainda mais independência e autonomia da minha vida, quanto na parte acadêmica, em que pude absorver uma quantidade enorme de conhecimentos, vivenciar uma outra cultura e ainda aprimorar o meu inglês.

 

A.I. - Foi nesta oportunidade que você conheceu sua sócia na empresa Adaptare, Fernanda Monteiro. Como nasceu a idéia do negócio? Já foi durante a viagem?

Mirella - Durante a viagem nós tínhamos que fazer estágio em uma escola infantil para ver como era a inclusão naquele país. Apesar de já ter viajado para lá em outras oportunidades, foi ali que comecei a reparar nas diferenças em relação ao atendimento destas pessoas no Brasil e nos EUA. Lá realmente víamos a inclusão, ou pelo menos uma grande e real preocupação e respeito pelo grupo. A acessibilidade era mesmo levada em consideração, e isso facilitava a vida e, principalmente, a locomoção dessas pessoas. Por este motivo víamos pessoas com deficiência em todos os lugares e desempenhando todo e qualquer tipo de atividade. Isso passou a chamar a minha atenção.

 

O mesmo aconteceu com a Fernanda, como terapeuta ocupacional ela já tinha experiência em lidar com esse grupo e sabia da realidade brasileira. A brutal diferença entre estas duas realidades também lhe chamou a atenção. Quando retornamos ao Brasil iríamos começar o último ano da faculdade e, por isso tínhamos que pensar qual seria o tema da nossa monografia. Resolvemos tratar sobre a inclusão e foi a partir daí que começamos a pesquisar mais a fundo a realidade no nosso país em relação às pessoas com deficiência, ainda fizemos pós-graduações relacionadas ao tema e, em virtude das dificuldades que fomos encontrando, começamos a colocar no papel esse projeto que tornou-se a Adaptare.

 

A.I. - A filosofia da Universidade Tuiuti do Paraná é a promoção humana. Você conseguiu sentir isto durante o tempo em que passou estudando na UTP? Como?

Mirella - Apesar da universidade ter alguns lugares inacessíveis para pessoas que utilizam cadeira de rodas como eu, sempre tive essas questões resolvidas prontamente. Por exemplo: o curso de letras ficava no terceiro andar do edifício da universidade. Já após o vestibular, nossa turma foi transferida para o térreo, facilitando a minha locomoção. Também tive total apoio durante o processo seletivo para o intercâmbio, em que todas as minhas necessidades foram levadas em conta e não tive problemas em levar uma outra pessoa para me acompanhar durante toda a viagem.

 

A.I. - Você acredita em destino?

Mirella - Acredito que exista um propósito para estarmos aqui e passarmos pelos desafios que encontramos ao longo da vida. A maneira que escolhemos para ultrapassar estes desafios é que depende de cada um. Eu até poderia estar numa cama, chorando e reclamando da vida, mas não foi essa a minha opção. Até porque esta atitude não iria resolver, nem ajudar em nada na solução dos meus problemas. É por isso que eu tento levar minha vida da maneira mais leve possível, aproveitando ao máximo os momentos de alegria. Sempre agradeço a Deus por minha família e amigos. Eles são maravilhosos. Sempre me apoiaram nos momentos difíceis e vibram junto nos momentos de conquista...

 

A.I. - No seu trabalho você ajuda pessoas que, num passado não muito distante não teriam a menor chance no mercado. Ao que parece, as pessoas estão cada vez mais conscientes. O que falta para os portadores de deficiência conseguirem mais oportunidades no mercado de trabalho?

Mirella - Na minha opinião esta inclusão no mercado de trabalho AINDA não é reflexo da consciência das pessoas sem deficiência, mas sim uma obrigação legal. Foi a partir da Lei de Cotas (que obriga empresas com mais de 100 funcionários a contratar de 2 a 5% de pessoas com deficiência para fazerem parte do seu quadro de funcionários), que o mercado de trabalho começou a mudar. É provável que esta maior convivência entre pessoas com e sem deficiência venha a trazer realmente uma maior conscientização da sociedade em relação à capacidade deste grupo ainda desacreditado para o trabalho. Mas logicamente não é apenas o preconceito ainda existente na sociedade que dificulta esta inclusão das pessoas com deficiência. Existem muitos problemas a serem superados para que uma pessoa com deficiência consiga chegar a uma vaga de trabalho.

 

A principal reclamação dos empregadores diz respeito à falta de qualificação de grande parte deste grupo. E posso afirmar que existe coerência nesta reclamação, mas antes de fazermos qualquer julgamento, as pessoas deveriam olhar um pouco mais adiante e verificar o motivo dessa realidade. Será que lhes foram dadas as mesmas oportunidades? Será que foram incentivados pelos familiares, ou estes também não acreditavam nas suas capacidades? Será que tiveram acesso às escolas? (lembrando que apenas muito recentemente as escolas regulares são obrigadas a aceitar pessoas com qualquer tipo de deficiência). E em relação à acessibilidade, será que nossas cidades estão adaptadas às necessidades das pessoas com deficiência? Como chegar às escolas ou trabalho? E quando conseguem chegar a estes lugares será que lhes são dadas condições necessárias para desempenharem suas funções?

 

São diversos os fatores que dificultam e criam uma desvantagem para as pessoas com deficiência ingressarem no mercado de trabalho e acredito que seja uma responsabilidade de TODA a sociedade diminuir esta desvantagem e oferecer as mesmas oportunidades para qualquer pessoa.

 

A.I. - O que te deixa emocionada?

Mirella - Além das pequenas coisas do nosso dia-a-dia, que muitas vezes passam despercebidas pela maioria das pessoas, como a beleza de um pôr-do-sol ou de uma noite iluminada pela lua. Também não posso deixar de citar (em uma visão bem egocêntrica) minhas próprias superações, pois nunca imaginei ter conquistado tudo que já conquistei e superado tantos obstáculos como nos últimos anos.

 

A.I. - Como você adaptou sua vida para conviver com as limitações?

Mirella - As minhas limitações restringem-se a limitações físicas. Dessa forma tanto a minha comunicação quanto o meu intelecto permanecem a mil por hora. É lógico que me adaptar a esta condição não foi um processo nem rápido, muito menos fácil. Mas tenho a sorte de ter uma família com condições financeiras para me proporcionar tudo o que preciso e de ter ao meu lado, desempenhando o papel de meus braços e pernas, durante as 24h do dia, pessoas extremamente dedicadas e carinhosas. Entretanto, existem ainda algumas situações em que nem mesmo braços fortes são suficientes para superar alguns obstáculos arquitetônicos, como longas escadas, ruas esburacadas e com calçamento irregular. Isso citando apenas alguns exemplos de acessibilidade arquitetônica, sem falar nos obstáculos atitudionais, que como eu já citei anteriormente, se não houver a boa vontade da sociedade em geral não veremos mudanças, pois na grande parte das vezes, atitudes preconceituosas acabam sendo mais limitadoras do que a própria acessibilidade arquitetônica.

 

A.I. - O mundo está pronto para os portadores de deficiência? O que falta?

Mirella - Acho que o mundo ainda não está pronto para lidar com as diferenças, sejam elas de caráter racial, social, religioso, físico ou intelectual, se fugirmos da regra dita como "padrão" para a sociedade, naturalmente somos excluídos por esta maioria. O que ainda falta para uma inclusão efetiva de qualquer minoria é um maior interesse, maior abertura na busca de informações a respeito de temas que em um primeiro momento possam causar certo estranhamento. Assim como acontece com qualquer pessoa que esteja enfrentando uma nova situação, uma situação talvez não tão usual para a maioria, somente com informações e a convivência com essa diversidade que veremos com maior naturalidade estas situações.

 

A.I. - Quais são os sonhos da Mirella de hoje?

Mirella - O meu maior sonho é continuar me realizando profissionalmente, contribuindo com a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, além de aumentar a conscientização da sociedade sobre as nossas reais necessidades, sem nenhum tipo de paternalismo ou superproteção. Gostaria de conseguir facilitar (nem que seja minimamente) neste processo de inclusão, pelo qual eu mesma já passei, para aqueles que estão ingressando no mercado de trabalho.

 

Acima de tudo quero me sentir útil, poder ajudar aos outros da mesma forma que fui ajudada durante tanto tempo. Que eu consiga mostrar para as pessoas que me cercam que todas essas limitações não me impedem de ser feliz e curtir muito cada bom momento da minha vida. Sem deixar que a vida apenas passe por mim mas tomar parte desse processo, mesmo que os obstáculos que venham a surgir pareçam intransponíveis, que esse seja apenas mais um desafio a ser ultrapassado.

 

ASSESSORIA DE IMPRENSA
UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ

 

Veja outras entrevistas
Sebastião Lourenço dos Santos e Maria de Lourdes Martins
Uraci Bonfim
Vivian Tosin
Décio Pignatari
Mirella Prosdócimo