Ainda há espaço para se discutir os estudos culturais? Não ousaríamos dizer que os Estudos Culturais estariam "mortos", como "o autor" uma vez o foi, mas o fato é que essa área transdisciplinar, que tanta atenção chamou nos anos 1980 e 1990, parece não causar mais polêmicas. No entanto, o Dossiê que elaboramos para este número 9 da Interin deixa claro que o legado dos Estudos Culturais continua vivo e atuante na vanguarda do pensamento acadêmico, no Brasil e em outros países.
Por isso mesmo, o artigo Histórias da teoria: os estudos culturais e as teorias pós-coloniais na América Latina, de Ângela Prysthon, é oportuno: a autora faz uma revisão da história dos estudos culturais para chegar à contribuição do campo para a teoria produzida na América Latina. Prysthon demonstra aqui seu repertório sobre o assunto, reunindo dados de épocas e linhas teóricas diferentes e muitas vezes conflitantes. Quem tem pouco conhecimento da história dos estudos culturais, encontrará nesse artigo fonte valiosa; quem já teve contato com essas informações, encontrará uma visão renovada e atualizada dos debates que têm animado esse campo transdisciplinar.
O texto de Esther Hamburger, Novelas como proto-interação, ou para uma crítica dos estudos de recepção, discute a importância dos estudos culturais nos estudos de recepção. Ao realizar a discussão de algumas matrizes teóricas, a autora estende uma ponte entre os estudos de cinema e de televisão, freqüentemente separados muito mais como conseqüência de diatribes acadêmicas do que por alinhamentos teóricos. Sem deixar de notar as diferenças entre os dois meios, Hamburger traz novos elementos para a discussão, demonstrando a vitalidade dos estudos culturais em nosso meio acadêmico.
Outra busca por matrizes está no texto de Marco Antonio Roxo da Silva e Igor Sacramento, Thompson/Williams: para uma história cultural da comunicação, em que os autores se voltam para as fontes que deram origem a esse campo de estudos e focalizam um de seus elementos fundamentais: a luta de classes, que está na origem mesma dos Estudos Culturais. Esse elemento costuma ser negligenciado por certas interpretações que costumam se concentrar no que deveria ser o "politicamente correto". Essa revisão crítica tem sido feita no Brasil por outros autores e autoras (como Maria Elisa Cevasco nos estudos literários, apenas para citar uma das mais notáveis). Nos Estados Unidos, vale lembrar a polêmica que suscitou a "despolitização" do campo, que veio a ser confundido com as ambigüidades de certo "multiculturalismo", algo ativamente criticado e combatido por Peter McLaren, Ella Shohat, Robert Stam e outros. O texto de Silva e Sacramento, contudo, faz mais: recontextualiza essas fontes naquilo que os autores denominam, apropriadamente, "os estudos culturais da comunicação", apontando para a importância específica desse campo de estudos em nossa área.
O trabalho de Simone Rocha e sua equipe, Os estudos culturais e os entrelaçamentos entre comunicação e cultura: uma análise do filme Cão sem dono, é um exercício desses mesmos princípios dos estudos culturais. O artigo explora as relações entre comunicação e cultura e, para demonstrá-las, faz uma análise da obra de Beto Brant.
Entre os textos de temas livres, Rejane de Oliveira Pozobon e Tabita Strassburger fazem em Construção de identidades argentinas a partir das representações midiáticas acerca da presidente Cristina Kirchner um estudo de caso da imprensa gaúcha, tendo como pretexto o noticiário a respeito da presidente Kirchner e o papel desse noticiário na construção das identidade(s) argentina(s) no Brasil. O estudo vem num momento em que a América Latina vê a emergência de mulheres em postos-chave na política, ao mesmo tempo em que as mídias tradicionalmente conservadoras demonstram não estar preparadas para esse fato histórico inédito. Além disso, as autoras demonstram de que modo nossa mídia reforça estereótipos que pouco permitem a discussão de novas bases para o relacionamento entre os dois países.
Em Mídias interativas e relacionamento mercadológico: o caso do site Nike Plus, Marcos Nicolau e Ana Cirne Paes de Barros abordam a questão da interatividade, central nos atuais estudos de comunicação. Tecendo uma malha teórica que percorre antropologia, cibercultura e mesmo propostas polêmicas como a da "cauda longa", os autores exploram o papel (cada vez mais importante) das redes sociais na formação de ambientes midiáticos apropriados por empresas interessadas em criar novas estratégias de mercado.
Maria Argentina Húmia Dorrio faz, em A linguagem e a estratégia comunicativa na representação da ética em Dogville, de Lars von Trier, um exercício de análise do filme, apoiada por idéias de Soren Kierkegaard and Décio Pignatari. Ao examinar detalhes da mise-en-scène, a autora busca entender de que maneira a questão ética da obra revela-se em sua própria forma.
Em seu artigo Dos Blogs aos Microblogs: Aspectos Históricos, Formatos e Características, Gabriela da Silva Zago trata de um dos temas que atualmente tem crescente atenção nos meios acadêmicos na área da comunicação. Zago faz um inventário que guia o leitor por um campo novíssimo: o dos microblogs e suas ferramentas específicas. Esse artigo dá continuidade a um dos temas que já mereceu um Dossiê na Interin 5, e cuja importância é crescente neste momento em que as redes sociais virtuais desempenham um papel cada vez mais relevante no cotidiano.
Gisele Miyoko Onuki faz uma atenta resenha de Corpo e Comunicação: Sintomas da Cultura, obra de Lucia Santaella, uma das pesquisadoras mais conhecidas da área da comunicação no Brasil.
Para completar, o texto lúdico desta edição é de Glauco Menta, artista plástico paranaense, que alude aos meios de comunicação em enfoque estético, dialogando com a capa, também de sua autoria.
Boa Leitura !