Introdução A condução de processos humanos se dá, às
vezes, de forma consciente, porém
de forma inconsciente, na maioria das vezes. Uma visão compartilhada
e o aprendizado coletivo ocorrem, da mesma forma, consciente ou
inconscientemente, durante a condução de um processo. Tendo em vista a inclinação do ser humano para a autoconsciência, desde sempre – ao menos desde que começou a ser denominado de humano – este começou a estabelecer suas associações em função de uma dada percepção da realidade. Ao ter as mãos livres, ao assumir a postura bípede e ao olhar à frente, utilizando-se de identificações visuo-motoras – imitando e criando a partir do que vê -, desenvolveu a sua compreensão do mundo. Assim o ser humano começa a desenvolver o pensamento e enquadrar o seu em torno nesta nova forma de processar suas sensações, intuições e sentimentos, e formata sua percepção e respectivos valores. O pensamento culmina em crenças que, ao serem adotadas, determinam uma visão de mundo, considerando-se o conhecimento possível em cada estágio da evolução humana. Dizendo de outra maneira, a sensação e a intuição
de algo, que diz da sua existência e possibilidades, levam a uma
percepção de como se dão as coisas. Em decorrência da emoção
gerada resulta um sentimento que mostra o valor desse algo. A percepção
e os valores levam a um pensamento, que revela o que é esse algo,
determinando as crenças adotadas por uma cultura, as quais implicam
uma visão de mundo, a partir da qual se desenvolvem ações sobre a
realidade externa. A realidade externa transformada realimenta a
percepção, estabelecendo um ciclo retroalimentado.
Cada novo ciclo é dobrado sobre o ciclo anterior e assim, de dobramento em dobramento, cumulativamente, constrói-se a cultura humana. Porém, cabe salientar que este processo se dá a partir do posicionamento de individualidades, de crenças individuais, nos seus diferentes graus de influência, na composição de condutas coletivas. Portanto a condução dos processos humanos é de responsabilidade do ser humano, na sua individualidade, de uma forma completamente singular, que de acordo com uma identidade/essência , quer seja (de novo) consciente ou inconscientemente, determina uma direção para o processo. Torna-se fundamentalmente importante ter consciência, a mais ampla possível, da posição que o indivíduo se encontra, e a partir desta - um ponto totalmente singular - conceber os possíveis caminhos para a construção de uma totalidade, que, ao se dobrar sobre as individualidades, estabelece um outro ciclo retroalimentado, sintetizado pelo dito “o homem faz a história e a história faz o homem”. Justificativa A série de crises com que nos defrontamos atualmente, tanto as pessoais, as ambientais, assim como as sociais e as organizacionais, apontam para uma necessidade urgente de se trabalhar a educação de adultos, partindo do pressuposto que são estes os agentes responsáveis pela construção do processo social e pela preparação desta mesma sociedade para acolher as gerações futuras. A
transformação social, almejada por muitos, em direção a uma
sociedade mais harmoniosa, solidária e satisfatória, exige uma nova
proposta educacional no sentido de ampliar a percepção da realidade
e do desenvolvimento do “ser humano total”, resgatando o seu
compromisso com a ética e sua responsabilidade com a vida. Uma nova pedagogia, visando a reeducação de adultos, faz-se necessária, tendo em vista a alienação generalizada que se instaurou na sociedade moderna, nas relações do homem com o trabalho, do homem com os outros homens e do homem consigo mesmo. O atual estado de alienação do homem em relação ao trabalho acentuou-se, no transcorrer da história ocidental, com a modificação do sistema de produção de bens que passou do artesanato para o sistema de manufaturas. Em meados do século XVIII, com uma série de inovações técnicas, sociais e econômicas, a ascensão da burguesia e o capitalismo são fortalecidos culminando na Revolução Industrial. No decorrer destas transformações o sistema produtivo passa a ser caracterizado em níveis crescentes pela divisão do trabalho, que se dá naturalmente pela expansão do mercado, o que fez com que o homem começasse a trocar o excedente do seu trabalho pelo excedente do trabalho de outros homens, acabando por desenvolver tarefas e habilidades específicas. Com o surgimento das grandes fábricas, faz-se a passagem do artesão para o operário; enquanto que o primeiro mantinha uma plena identificação com o seu trabalho, fazendo-o do inicio ao fim, o operário perde esta identificação; fazendo somente parte do trabalho submete-se aos desígnios do empregador. O detentor do capital, aliado à crescente utilização de tecnologia e máquinas, define as formas de organização do trabalho impondo uma heterogestão sobre o trabalhador que, com a divisão do trabalho, não percebe mais o alcance do mesmo. O trabalhador fica então alienado em relação ao seu trabalho, transferindo, basicamente, a sua motivação para a remuneração recebida, ficando alheio ao processo produtivo e às demais relações advindas do trabalho em si. O problema da alienação do homem em relação ao trabalho está inserido num contexto mais amplo, que leva a uma análise da alienação do homem em relação a si mesmo, com os outros e com o mundo como um todo. O início do movimento que nos traz este sentimento de alienação, dos dias de hoje, remonta aos primórdios da história das civilizações, a partir da distinção entre o plano das idéias e o mundo da experiência dos sentidos , na filosofia de Platão, e passando pelo cristianismo, que valorizou a alma em detrimento do corpo. Portanto, o entendimento que se estabelece é o da mente, entendida aqui como tudo aquilo que é imaterial, separado do corpo, ou seja, da matéria. A separação entre mente e matéria é reforçada incisivamente no início da Era Científica, em função do racionalismo da filosofia de René Descartes (1637), sintetizada pela máxima “penso, logo existo”. Esta separação entre mente e matéria leva Descartes a ver a natureza como uma máquina de relógio, composta de peças isoladas, que juntas determinam o funcionamento do todo. Por sua vez, esta concepção mecanicista do mundo serve de base para o desenvolvimento da física de Isaac Newton (1687) que, através de uma completa formulação matemática, fundamenta o pensamento científico, passando a influenciar todas as demais ciências que começam a surgir. O sistema de valores que se desenvolveu nos séculos XVII e XVIII, com as novas ciências, baseadas na física newtoniana, resulta no que se denominou de Iluminismo, tendo no filósofo John Locke (1690) um de seus maiores representantes. Fortemente influenciado por Descartes e Newton, Locke desenvolve estudo sobre a natureza do ser humano individual, utilizando-se da concepção atomicista, extrapolando-a para as relações sociais, com o que vem a influenciar a forma do pensamento ocidental através dos ideais de individualismo, direito de propriedade, mercados livres e governo representativo. A Revolução Científica e o Iluminismo levam a uma visão materialista e antropocêntrica do mundo que se contrapõe à visão espiritualista da Idade Média, fazendo com que a mente se concentre na matéria; aprisionada no corpo perde sua ligação com o divino. A mente passa a ser vista como totalmente dependente da matéria e isolada no corpo. Juntamente com esta visão materialista desenvolve-se a mentalidade capitalista moderna, baseada na propriedade privada e na acumulação de bens, de matéria. Como a mente só se reconhece na matéria, mas lhe é superior, resulta no domínio do ter - verbo representativo do capital -, sobre o fazer - verbo representativo do trabalho -, subjugando o ser – verbo representativo da ação do trabalhador. Sob estes pressupostos estabeleceu-se uma visão fragmentada da realidade determinando uma fragmentação do saber, assim a percepção humana passou a ser a das partes, todas isoladas umas das outras, refletindo na alienação do homem em relação a si mesmo, à sociedade e ao meio ambiente. A fragmentação, o individualismo e a valorização da propriedade privada, foram muito adequadas e úteis à revolução industrial e à ascensão do capitalismo. A propriedade privada passou a ser um direito do indivíduo ao invés de um bem de uso comum. Assim, o individualismo se tornou dominante na cultura ocidental, levando a uma busca incessante pela propriedade e pela acumulação de bens, de matéria, dando uma conotação imediatista ao conjunto da sociedade, na satisfação e atendimento aos direitos do indivíduo na sua busca obsessiva pelo crescimento econômico. Com a Revolução Industrial, na busca pelo crescimento econômico, desenvolveu-se a tecnologia que vem a reforçar o domínio do material sobre o humano. O homem passou a ser visto como uma máquina - devia estar bem ajustado ao sistema de produção industrial -, uma engrenagem a serviço do crescimento econômico e tecnológico, porém, pretensamente remunerado de forma que poderia almejar a acumulação de bens e a aquisição da casa própria, sendo levado a um consumismo exacerbado e perdulário, o que possibilitaria a manutenção do sistema produtivo. A
tecnologia tornou-se alvo tanto para o indivíduo como para o sistema
econômico e mais ainda, passou a ser vista como determinante do
sucesso das organizações humanas e da felicidade das pessoas. Uma ética capitalista estabeleceu-se, colocando o individual acima do social, utilizando-se do ambiente público para fins privados. As cercas colocadas nas terras de propriedade privada geraram cercas mentais que isolaram o hemisfério esquerdo do cérebro humano do hemisfério direito, impedindo o livre trânsito da percepção lógica em comunhão com a percepção intuitiva. Isolado, o hemisfério esquerdo assenhoreou-se da verdade e impôs as suas regras ao convívio social, o que levou a cultura ocidental a erigir alguns mitos: a propriedade privada, o consumo e a acumulação de bens materiais; endeusando o dinheiro privilegiou o ter em relação ao ser, e fomentou o separatismo entre mente e matéria, entre o eu e o outro, que se encontram apenas, na maioria das vezes, através de uma relação eminentemente material, uma relação entre coisas. As relações entre indivíduos, que se percebem isolados uns dos outros, levaram cada um a buscar ter poder sobre o outro, o que enfraquece a ambos, privilegiando uma relação de mercado em detrimento das relações humanas - uma sociedade baseada em metas que nada têm a ver com a emancipação humana. Foram estabelecidas relações entre coisas, entre um, o sujeito, e o outro, o objeto. Assim a sociedade - o sujeito - trata o ambiente - o objeto -, do mesmo modo como trata o indivíduo, também como objeto, numa relação cíclica recorrente, ou seja, um ciclo de influências que se retroalimenta consecutivamente. O espaço que cerca ou envolve os seres vivos, no caso os seres humanos, implica num modo de agir e numa maneira de ser que acaba por desenvolver juízos de apreciação quanto à conduta humana, o que leva um conjunto de pessoas a seguirem normas comuns e unirem-se pelo sentimento de consciência do grupo. A sociedade formada atua no ambiente, transformando-o, o que por sua vez leva a alterações dos padrões éticos, os quais vêm a influenciar na estruturação da sociedade. Este desenvolvimento se dá em ambos os sentidos simultaneamente e traz consigo todos os movimentos anteriores, definindo as tendências a serem seguidas, porém incorpora possibilidades de descontinuidade, com saltos para novos patamares, caracterizando uma evolução como em espiral. Dizendo de outra maneira, na interação com o ambiente, o indivíduo se faz determinando o seu comportamento ético, retroagindo sobre o próprio ambiente e estabelecendo, simultaneamente, relações sociais, que por sua vez retroagem sobre os indivíduos e também simultaneamente transformam o ambiente. Uma ordem é estabelecida nestas interações, as quais produzem organização, mas também produzem desordem, sendo esta última caracterizada pelas diversas doenças dos nossos dias, tanto humanas, como sociais e ambientais. Não seriam as doenças humanas, como o elevado índice de stress do cotidiano, o crescente consumo de drogas, a grande ocorrência de suicídios inclusive entre crianças (como pode uma espécie levar ao suicídio seus próprios descendentes?), uma pressão para romper o ciclo no atual patamar, promovendo condições que possam levar a um salto na espiral, possibilitando uma auto-reorganização das relações humanas? Também o elevado crescimento de doenças sociais, como o desemprego, a corrupção desenfreada, a criminalidade e a miséria apresentam-se como estados resultantes da entropia do sistema. Mas principalmente as doenças ambientais: elevação da temperatura média da terra pelo efeito estufa, materiais tóxicos descarregados no meio ambiente, buraco na camada de ozônio, poluição do ar e das águas, uso indiscriminado do solo, entre outros, que estão gerando uma grave deterioração do meio ambiente natural, poderão vir a ser o motivo para uma descontinuidade do atual ciclo. Todos estes fatores parecem estar predestinados a tornarem-se a gota d'água que levará à necessária tomada de consciência quanto à conduta predadora do homem; homem este que acabou por colocar todo o conhecimento adquirido nas mãos de entidades abstratas – o mercado e as tais sociedades anônimas -, delegando a sua autoridade às instituições, transferindo a sua responsabilidade para ninguém. O conhecimento e as relações humanas desenvolveram-se dentro dessa visão materialista separatista ocasionando uma total fragmentação do saber e um grande isolamento do viver. Propósito Para superar a visão fragmentada que separa mente e matéria, faz-se necessária uma nova pedagogia, centrada nos conceitos do que se pode chamar hoje de nova ciência (Teoria da Relatividade, Teoria Quântica, Teoria do Caos e Complexidade e Teoria dos Sistemas Vivos) e em uma prática transdisciplinar. O entendimento do que seja esta nova ciência é dado pela mudança que ocorre no início do século XX; em consonância com o jogo entre ordem e desordem, surge dentro da própria física, a mesma que promulgava a ordem absoluta na natureza e no universo, uma desordem que se contrapõe às verdades estabelecidas. A formulação da Teoria da Relatividade e da Teoria Quântica, promovendo uma descontinuidade e auto-reorganização na sua área de abrangência, revogam princípios da visão de mundo da física newtoniana em aspectos tais como: noção de espaço e tempo absolutos, partículas sólidas como elementos mínimos da matéria, matéria como substância fundamental da realidade. Com isto se opõem à divisão cartesiana entre mente e matéria. A partir da comprovação da inexistência de objetos sólidos, isolados, no nível atômico e subatômico constata-se que as partículas não têm existência independente das suas inter-relações - elas coexistem na dualidade onda-partícula, fazendo prevalecer as relações sobre os objetos em si. A concepção newtoniana de matéria, constituída como por bolas de bilhar, isoladas e indivisíveis, passa na concepção quântica para a de relacionamentos sinérgicos onde o resultado do todo é maior do que a soma das partes isoladamente. Outra
consideração importante a ser destacada, nesta nova concepção, é
a de que o observador influencia o fato observado. Uma observação
implica uma relação entre o fato observado e o observador em si;
levando em consideração que são as relações que dão sustentação
para a matéria, o observador estará influenciando diretamente na matéria,
tendo em conta a dualidade mente-matéria, ou seja, onda-partícula. Até aqui, pode-se concluir que a realidade material, e também a social, emerge dos nossos relacionamentos, o que implica que a forma de uma pessoa colocar-se frente a uma situação irá determinar os resultados desta situação. A evolução de uma sociedade, inclusive na sua vertente econômica, está ligada intrinsecamente às crenças e ao sistema de valores adotados, que irão nortear os relacionamentos de seus membros. As organizações, quaisquer que sejam, estão inseridas num contexto social e seus relacionamentos internos seguem os mesmos padrões da cultura predominante. Para alcançar a transformação desejada, faz-se necessária uma reversão dos valores, calcados na separação entre mente e corpo, para promover a junção quântica entre onda e partícula, mente e corpo. Assim, a ênfase passa para os relacionamentos entre as individualidades, valorizando o trabalho - o fazer -, promovendo o trabalhador - o ser -, resultando como valor de uso o capital - o ter. Deixando os conceitos clássicos da física newtoniana, assumindo uma visão quântica, pode-se chegar a esta transformação, sendo, porém, necessária a capacitação e qualificação de seus atores, o que demanda todo um novo processo de aprendizagem. Aprendizagem esta que suscite a implosão do capitalismo/neoliberalismo, ao estabelecer os parâmetros para uma revolução existencial (de consciência), direcionada para a construção de uma sociedade de relacionamentos quânticos. O caminho, pois, é o da educação através de uma pedagogia que se contraponha à ética capitalista, rumo ao verdadeiro socialismo, pelo questionamento não só da hegemonia capitalista, mas da própria visão materialista do mundo, que tem fomentado a adesão ao capitalismo. Esta nova pedagogia, baseada em valores e numa prática científica transdisciplinar - promovendo a reunificação dos fragmentos -, possibilita alterar a percepção da realidade pela integração entre ciência, filosofia, artes e tradições. A
preparação dos atores para as novas relações sociais e de trabalho
deve ser feita, necessariamente, através de um compartilhamento de
visão e do aprendizado coletivo. Uma reflexão que, abrangendo os
valores humanos, com a participação de todos os envolvidos, acabará
por circunscrever a questão do amor, o que chamo de Administração
pelo Afeto. A administração pelo afeto, tendo o caráter de uma filosofia afetiva, tem por objetivo eliminar a separação entre mente e matéria, razão e emoção, e promover a integração das potencialidades humanas, alinhando o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição, resgatando assim a espiritualidade esquecida - retirando da matéria a supremacia estabelecida retira-se a sustentação do capitalismo. Esta implementação busca abrir caminhos para reverter a alienação do trabalhador em direção à motivação para o trabalho em si. Ao estabelecer o caminho do afeto para a administração visa dar uma cara humana às organizações e resgatar a autonomia dos indivíduos, devolvendo às pessoas o lugar de protagonistas da história, salientando a sua responsabilidade quanto a sua atuação local e diária dentro das organizações, conscientizando-as de sua importância na reorientação dos rumos da humanidade. A conseqüência desta mudança de paradigma, da “realidade newtoniana” para a “realidade quântica” implica em um novo saber, novo saber este que se opõe à cultura do “eu” e do “meu”, à “ética” capitalista calcada no "ter". Propõe uma ruptura em relação ao individualismo, em direção a uma nova percepção do homem em permanente interação com o que o cerca (e não com as cercas da propriedade privada); o homem passa a ser os seus relacionamentos. O "eu" e o "outro", sujeito e objeto mantêm relações "íntimas", de interdependência, onde não existe separação, isolamento; um dando origem ao outro, formando uma totalidade indivisível. A Teoria dos Sistemas Vivos, implica em permanente troca entre individualidade e totalidade, constituindo um ciclo recorrente. O que separa o indivíduo do todo é também o que une o indivíduo ao todo. A pele é o que separa o corpo do ambiente externo, sendo ao mesmo tempo a união entre um e outro; é exatamente pela pele que acontece a permuta entre interior e exterior. Os estudos desenvolvidos sobre a Teoria do Caos e Complexidade estimulam a idéia de um sistema caórdico, onde, uma vez alcançado certo nível de desordem em uma dada organização, dentro de parâmetros admissíveis que ainda permitam uma auto-referência, o sistema busca a sua auto-reorganização, dando um salto na espiral evolutiva, estabelecendo, nesse novo patamar, uma nova ordem. Imanência e transcendência, paradoxalmente as duas faces de uma mesma moeda, são características complementares dos sistemas vivos, que abertos e complexos, estão em permanente troca com o ambiente, interagindo com novas informações, numa relação de dependência e autonomia (interdependência). A complexidade traz à tona um mundo de paradoxos: ordem e desordem, partícula e onda, mente e matéria, interior e exterior, subjetividade e objetividade, individualidade e totalidade; é um dizer não à tirania do ou e saudar a genialidade do e; é o indivíduo (a ética) e a sociedade e o ambiente; é mais que simplesmente uma visão ecológica, é uma visão da ecologia profunda, que segundo Fritjof Capra é vista como: A
ecologia profunda é apoiada pela ciência moderna e, em especial,
pela nova abordagem sistêmica, mas tem suas raízes numa percepção
da realidade que transcende a estrutura científica e atinge a consciência
intuitiva da unicidade de toda a vida, a interdependência de suas múltiplas
manifestações e seus ciclos de mudança e transformação. Quando o
conceito de espírito humano é entendido nesse sentido, como o modo
de consciência pelo qual o indivíduo se sente vinculado ao cosmo
como um todo, torna-se claro que a consciência ecológica é
verdadeiramente espiritual. De fato, a idéia do indivíduo vinculado
ao cosmo expressa-se na raiz latina da palavra religião, religare (ligar
fortemente), assim como no sânscrito yoga,
que significa união.1 A posição do indivíduo, do ser, nesta trama de relações é de vital importância, pois tudo parte de uma percepção de si, porém não fixa no individualismo, e sim na individuação, ou seja, no conhecimento de si, do indivíduo em ação - a individualidade em ação na totalidade e a totalidade expressa na individualidade. O modo de agir, a maneira de ser, depende da consciência do indivíduo, que determina a sua intenção, e por sua vez promove um julgamento, culminando na sua conduta, e assim construímos os nossos valores Precisamos urgentemente superar a nossa crise de percepção; percebemos a realidade fragmentada, formada pela visão de um mundo mecanicista/materialista; agora podemos conectar estes fragmentos e criar um mundo interdependente/ orgânico. Talvez estejamos no limiar de uma nova revolução, prestes a dar um salto quântico, para um novo patamar da espiral evolutiva, nos mesmos moldes do que acontece com o elétron, quando de uma forma descontínua salta de uma órbita para outra. Assim como, em meados do milênio passado ocorreu a passagem do sistema Geocêntrico para o sistema Heliocêntrico, podemos prever agora, ao iniciar um novo milênio, uma nova ruptura, passando de um sistema Egocêntrico para um sistema Holocêntrico ou Ecocêntrico, onde a ênfase deixa de ser o indivíduo e passa para a totalidade, valorizando as relações entre as partes e não as partes em si. A complexidade, privilegiando a conjunção e, propõe uma junção entre o ocidente e o oriente, a lógica e a intuição. Portanto, nas atuais circunstâncias, em função do predomínio do ocidente, emerge a necessidade de minimizar a supremacia da lógica, buscando um resgate da intuição; o ter é lógico, concreto e objetivo, enquanto o ser é intuitivo, abstrato e subjetivo. Ser fazendo e fazer sendo promove a circulação e não a acumulação, a ética do fazer a serviço do ser e apenas como conseqüência ter. Afinal, a questão ética se coloca com toda a sua relevância. Mas, que ética é esta? Em suma, que valores estão em jogo? Seria uma nova ética, um novo conceito oriundo de uma nova forma de pensar? Ou seria um resgate de algo originário? É nesta segunda condição que o psicanalista João Perci Schiavon situa a questão ética: “O enunciado de Heráclito - ethos anthropo daimon [o ético é o deus no homem] – já evocava um lugar anterior a todos os lugares, o divino no homem, a altura ou plano de onde se avaliam todas as coisas, a importância de cada uma, a precedência de uma sobre as outras.” Assim se contrapõe à concepção racionalista socrática/platônica – distinção entre o âmbito das idéias e o mundo da experiência dos sentidos –, que, com Aristóteles, vincula a ética estritamente ao conceito de finalidade e dever, a partir de uma dada razão. Citando Schiavon: A grande reversão nietzscheana e psicanalítica reside nisto: é justamente da vida que procedem todos os valores. Lacan indicou com precisão esse lugar, esse ethos antigo e absolutamente atual, ao assinalar a autonomia do desejo frente a lei. Se o desejo cria a lei, é porque a vida diz o valor, a vida aprecia, avalia, considera, e dela decorrem tanto os valores que a afirmam como aqueles que, secundários, reativos, a negam; tanto as confirmações quanto as oposições e as inversões – tudo procede dela, para o pior e para o melhor.2 A vida é anterior à razão, é sensível, intuitiva, sentida e pensada, por isso não se restringe à lógica, apesar de ter a sua lógica. E assim, ética e vida estão intrinsecamente ligadas – o divino no homem e o valor dos valores - ao ponto de poder ser dito que ser ético é ser favorável à vida - uma ética vital. Então a nova percepção, a partir da visão quântica, sistêmica e complexa, embasada na ética vital, poderá fazer da trilogia afetividade-criatividade-felicidade, um novo ciclo retroalimentado, onde a afetividade atua na criatividade e na felicidade simultaneamente, assim como a criatividade na felicidade e na afetividade, e a felicidade na afetividade e na criatividade; todas estas interações acontecendo ao mesmo tempo. Esta trilogia, naturalmente, esta correlacionada aos valores humanos – como aspectos aos quais os seres humanos (saudáveis) dão grande valor -, assim como à questão do amor, visto como qualidade afetiva que promove a criatividade e resulta em felicidade. O amor, por outro lado, tido como força ativa (de atração) é a própria afirmação, que dobrada sobre si mesma – dupla-afirmação -, coincide com a virtude da existência, a quinta das sete virtudes vitais – da ação, de integração, da superação, do movimento, da existência, do singular e do sentido -, apresentadas por Schiavon como pulsionais por estarem relacionadas à pulsão de vida, as quais de uma forma cumulativa compôem a ética vital , conforme explicitado pelo autor. O exercício das seis virtudes mencionadas, sendo um único e mesmo exercício, traz à luz a sétima virtude, que é a do sentido. Que a ação seja integrativa, que a integração seja superativa, que a superação se expresse como movimento e desprendimento, e que a consistência do processo inteiro dependa de uma segunda afirmação enquanto posição ética e existencial, tanto mais acentuada quanto mais singular, eis o que finalmente se traduz como experiência de sentido – vivo, real, unívoco, pulsional. É assim que a linha de força e a linha de sentido se reúnem numa linha única de força e de luz.3 Este pode ser o novo patamar da espiral evolutiva, após o salto quântico, estabelecendo uma nova ordem, fundamentada nesta ética vital, ou, a ética do fazer com amor, que pressupõe o amor, mas não um amor individualista - somente ao redor de si mesmo -, mas um amor onda, que se transforma em amorosidade, um estado de amor, um amar o amor (dupla- afirmação). E esse amor onda propaga-se na sociedade, alterando a noção de propriedade, não aquela que aprisiona, tanto o capitalista que quer mantê-la como o trabalhador que quer tê-la, mas a de uma propriedade sobre o uso apenas. E esse amor onda propaga-se no ambiente, alterando a própria relação homem-ambiente, fazendo do ambiente a morada do homem. E esse amor onda retorna ao homem, e o homem retorna-se onda-partícula, e propaga-se vivenciando em plenitude os seus relacionamentos.
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1997. WHEATLEY,
Margaret J. Liderança e a Nova Ciência. Aprendendo organização com
um universo ordenado. São Paulo: Cultrix. 1992. ZOHAR,
Danah. O Ser Quântico. Uma visão revolucionária da natureza humana
e da consciência baseada na nova física. São Paulo: Best Seller.
1990. 8 ed.
* Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal do Paraná - Curitiba, PR. Consultor em gestão e cultura organizacional, com especialização em valores humanos pela Fundação Peirópolis, Mairinque, SP. Cursos e seminários de extensão em psicanálise, novos paradigmas científicos e interpretação teatral. Consultor voluntário da Associação Arayara de Educação e Cultura.
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Organização: Evelcy Monteiro Machado e Iolanda B. C.
Cortelazzo
Editoração: Iolanda B. C. Cortelazzo e Evelcy Monteiro
Machado - dezembro de 2003
Criação da Página: Iolanda B. C. Cortelazzo e Evelcy Monteiro
Machado - outubro de 2003
Realização: NUPPEI - Núcleo de Pesquisa em Processos
Educacionais Interativos e
LEPPE - Laboratório de Ensino, Pesquisa e Práticas Educacionais - Curso de Pedagogia - UTP
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